O que mudou foi o País. Aliás, o drama actual é consequência do sucesso dos políticos. Depois dos terríveis choques da revolução de Abril e da adesão à Europa, as instituições portuguesas estabilizaram. Mas a calma fez regressar o pior da cultura lusa. Surgiram as classes instaladas, direitos adquiridos, interesses organizados. Voltámos à esclerose social que destruiu o tempo de D. Fernando, D. João III, D. Carlos e Afonso Costa. Mas a era da informação e globalização não se compadece com corporativismos, privilégios e condicionamentos industriais. Este é o busílis da questão que nenhuma força política se atreve a enfrentar.
O problema mais grave do País está no confronto entre contribuintes e grupos de interesse. Infelizmente essas duas forças diluem-se na sociedade, não são bem definidas e, em certa medida, coincidem. Mas através do Orçamento do Estado metade do produto nacional é retirada a uns para ser dada a outros. Esta redistribuição, em geral saudável e necessária, passou a incluir grandes desvios para actividades fúteis ou até nocivas. Burocracias, subsídios, bloqueios, estudos técnicos, funcionários inúteis, inspectores fanáticos, professores sem aulas, planos tecnológicos.
O Governo e o PS, como antes o PSD, enchem a boca com as reformas, fizeram algumas e criaram conflitos. Mas nunca estiveram realmente convencidos da sua justeza. Após três anos concretizaram muito menos do que disseram. Vivem hoje um misto de embriaguez de poder e de temor da ressaca. Do PSD pode dizer-se o mesmo, hoje com mais ressaca que embriaguez. Ambos sacrificam as ideias aos cargos.
O PCP é um caso à parte, o único partido com ideias claras sobre o futuro. Só que as suas ideias são do passado. Há muito tempo que não as vêem e, pelo cheiro, começam a suspeitar que estejam fora de prazo.
O País, que defronta desemprego e globalização, atrasos na justiça e custos da saúde, confusão na educação e aumento da criminalidade, não vê ninguém que o inspire. Existe uma patente incapacidade das instituições para entenderem, quanto mais lidarem com a situação nacional. A democracia funciona e ainda podemos evitar o pior. Este não é um Estado falhado, como o rotativismo liberal ou a Primeira República. Mas é preciso perceber que o mal não vem dos políticos mas da esclerose.





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