segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Guerra e Paz

Dentro de dias teremos um Espanha-EUA, em basquetebol, e um Bolt-Tyson Gay, em 100 metros, mas o embate do momento é um Geórgia-Rússia, na modalidade de canhões múltiplos. Ambas as equipas lutam para subir ao pódio da Ossétia do Sul. Lutam, mesmo, porque nesta modalidade olímpica (em todas, aliás, mas aqui mais francamente) o importante é ganhar, não é competir.

Ferreira Fernandes


O dia 8, do mês 8, do ano 8 do século XXI, foi um dia de emoções contraditórias. Se em Pequim, tivemos uma Cerimónia de Abertura dos Jogos Olímpicos como nunca antes se tinha visto, na Ossétia do Sul começou um conflito que causa apreensão a todos que se preocupam com os Direitos Humanos.

Os Jogos estão até ao momento a correr bem. A organização é quase perfeita e o nível competitivo é também ele muito bom. Estou confiante que depois destes 15 dias de emoções fortes a China se abra ao mundo e o mundo se abra à China. É essa a confiança, que alinhada nos ensinamentos do Dalai Lama fez com que eu não me declarasse, de forma aberta, favorável a um boicote a estes Jogos, porque temos que ser coerentes, pois em Atlanta em 1996 também ninguém defendeu o boicote num país onde a pena de morte existe e que tem em Guantanamo um dos maiores insultos à dignidade humana. Defendi isso sim, que atletas e representantes politicos, com humildade e serenidade, denunciassem todos os atropelos às liberdades, direitos e garantias dos cidadãos de forma simbólica durante a competição ou através de uma ausência que se justificava na Cerimónia de Abertura.

Dizia-se que os JO de Pequim iriam ofuscar algumas situações de violação dos direitos humanos na China. Mas na verdade, foi a Rússia que aproveitou esse momento para concretizar um conflito com a Geórgia, país pró Ocidental, numa zona estratégica de transporte de energia para os EUA e a UE. Fez-lo sobre o pretexto de ter a obrigação de ajudar o povo da Ossétia do Sul, de maioria pró-russa e que pede a independência em relação à Geórgia.

A verdade é que em apenas três dias o saldo é já de 2 mil mortos e 40 mil refugiados. Não são números apenas. São histórias únicas e irrepetiveís que desapareceram ou mudaram irremediavelmente. São gritos de angústia e de sofrimento aos quais fazemos orelhas moucas. São milhares de momentos de harmonia e de paz que são negados por canhões múltiplos. É uma destruição física, moral e intelectual de danos incalculáveis que serão pagos por inocentes.

A cada momento a situação deteriora-se. Agir é essencial, o diálogo um imperativo. Que os lideres que receberam o poder de acabar com esta situação ouçam o grito inocente das crianças e de todos os homens e mulheres envolvidos involutariamente neste conflito que não é seu. Esse grito de dor e de angústia que não pode ser ignorado, pelas terriveis consequências sociais, morais e económicas que num mundo globalizado, uma guerra com esta pode causar.




Aproveitando o espírito olímpico de paz e harmonia, uma atiradora russa e outra georgiana abraçaram-se para selar a "trégua olímpica". Um gesto simbólico, com o qual temos muito aprender. Por muito que a energia seja importante, nada supera o valor da dignidade humana, sem a qual nada é possível. Ainda que a atrocidade, que é uma guerra, se repita vezes sem conta através dos séculos num ciclo que se repete, é sempre hora da paz! E apesar das nossas diferenças e dos nossos valores, podemos olhar juntos na mesma direcção, sem recorrer ao uso da violência. Como estas duas atletas nos demonstraram. Brilhantemente...

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