"Foi preciso chegares a uma situação tão terrível para falarem de ti ao mundo, meu bom e querido Darfur"
Estamos em plena cimeira Europa-África. Uma cimeira de importância capital para dois continentes que têm de caminhar de mãos dadas, para que o futuro seja risonho. Mas sabemos, que isso só será possível se houver um profundo respeito pelos direitos humanos e pela paz:
"Porque, se o desenvolvimento é o novo nome da paz, quem não deseja trabalhar para ele com todas as forças?" - Papa Paulo VI, na sua enciclica Populorum Progressio.
Estamos no entanto, conscientes, que este terá que ser um tema em foco. Mas para que haja uma verdadeira mobilização capaz de libertar os povos menos desenvolvidos, é necessária a participação da sociedade civil, que já conseguiu excelentes resultados como na causa da independência timorense, por exemplo.
Tudo isto porque a sociedade civil não deve ser igual aos governos que prestam grande atenção aos direitos humanos apenas no Iraque, no Irão ou no Médio Oriente, apenas porque lhes convém. A sociedade civil deve ter sim um compromisso com as consciências e através das manifestações de massas e da comunicação social promover uma paz desinteressada em todo o mundo, uma vez que a ONU é hoje apenas um mero orgão consultivo, impotente perante os caprichos dos Estados Unidos da América e seus pares.
Enquanto isso acontecer, conflitos humanitários como o Darfur continuarão. Porque quando se diz que se vai discutir os direitos humanos nesta cimeira, não pudemos ter a atitude arrogante, de dizer que na Europa e no Ocidente somos "virgens" ao ponto de nunca termos violado os direitos da pessoa humana. Cometemos atrocidades ao longo dos séculos (com enorme tristeza minha, a maioria de vezes com o patrocinio da Igreja Católica que hoje se procura revitalizar) como o comércio de escravos. Sob o intuito da evangelização, colonizamos diversas regiões que hoje se encontram sem recursos e atrasadas no tempo por nossa causa, pagando os nossos erros. Os regimes pouco democráticos e as graves desigualdades pelos quais África passa hoje são a imagem da Europa de outros séculos. Urge mudar consciências e acelerar o processo de desenvolvimento. Porque o mundo é um só, e os continentes devem se unir também como um só!
O Darfur é hoje um dos mais graves problemas humanitários. O silêncio torna a sua resolução mais dificil. Todos sabemos que há lá algo que não está certo, mas sentimo-nos pouco mobilizados para agir. Importa dar um pouco a conhecer o drama pelo qual passa aquela região.
Onde fica o Darfur?
O Darfur é uma região do maior país africano, o Sudão, e situa-se no seu extremo Oeste onde faz fronteira com a Líbia, o Chade e a República Centro-Africana. Tem uma população de cerca de 6 milhões de pessoas e um baixo nivel de desenvolvimento, esperança média de vida e alfabetização. Vive desde 2003, um genocidio que tem matado milhares de pessoas.
O que é um genocidio?
Este termo criado por Raphael Lemkin, um judeu polaco durante a II Guerra Mundial, serviu para caracterizar a acção dos nazis perante os judeus. É a junça génos (do grego raça) com caedere (do latim matar). É no fundo a acção delliberada de eliminar um grupo humano através do seu assassinato em massa.
Quais são as causas do conflito?
Em 2003, alguns independentistas da região do Darfur de maioria africana e com um longo passado de exploração relacionada com o comércio de escravos revoltaram-se de forma armada exigindo a independência dessa região sul do Sudão em relação à região norte maioritariamente árabe e que tem vindo a ser governada por partidos que assentam a sua autoridade no crescente fundamentalismo religioso. A reacção foi o inicio de uma guerra civil baseada no extreminio dos africanos do sul pelos muçulmanos do norte, muito mais poderosos sob o ponto de vista militar, e com o apoio secreto de algúns países como a Libia e Arábia Saudita por exemplo, interessadas em impor nessa região o seu fundamentalismo islâmico. Porém, incompreensivelmente quer a população árabe, quer a africana falam o árabe e professam maioritariamente o islamismo.
Quais as consequências até hoje?
- Estima-se em mais de 3.000 o número de ataques a comunidades e aldeias destas milícias armadas e mantidas pelo governo (a uma média de cerca de 60 ataques por mês!) e entre 200.000 e meio milhão de vítimas mortais em quatro anos apenas.
- Não é só a guerra que mata já. É também já a fome e um número sem fim de doenças sobretudo entre os mais novos.
- Pelo menos 2 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar as suas casas e a procurar refúgio em campos onde estão totalmente dependentes das organizações humanitárias.
- As organizações de ajuda humanitária tem sido alvos frequentes das milícias, que procuram paralisar a sua actuação, agravando ainda mais a situação de extrema debilidade de milhões de pessoas refugiadas.
Acham pouco ou já chega? Será que não estaremos a assistir a um novo Holocausto que apenas não é seguido com atenção porque não há interesses políticos em jogo?
A situação chegou a um ponto insustentavel, porque o mundo adoptou uma atitude passiva que em nada nos dignifica. Falta a coragem, falta a fraternidade, falta a audácia e a solidariedade perante aqueles que sofrem sem esperança e que eventualmente puderiamos ser nós próprios.
Hoje mais do que falar em direitos humanos, fará sentido falar em deveres humanos que devem sem cumpridos escrupulosamente: o dever de agir, o dever de denunciar e o dever falar...
Porque as verdadeiras armas de destruição maciça estão lá e cá: a guerra e a fome lá e a indiferença e o esquecimento cá!!!
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