A minha semana começou com a preparação da "Exposição porDarfur" que abriu ao público às 14h30 de segunda feira. A exposição esteve aberta até quinta feira, durante a qual as turmas tinham a oportunidade de fazer uma visita guiada onde podiam contactar com várias fotos, vídeos e outros materiais relativos ao Darfur e onde podiam igualmente adquirir algu produtos para recolha de fundos. Por esta exposição passaram também nomes como o Dr. Fernando Nobre e o Dr. Pinto da Costa.
A terça foi sem dúvida o grande dia! Vestido a rigor, assisto durante breves instantes à Palestra "Mitos e Factos" organizada por um grupo de colegas que se tem dedicado ao estudo das ciências forenses e na qual tiveram a honra de contar com o Dr. Pinto da Costa que revelou uma grande empatia com o público. O telemóvel toca pelas 11h00. Era o Dr. Fernando Nobre, Presidente da Fundação AMI e um dos homens que mais admiro. Atendo e do outro lado a sua voz diz-me: "Sou o Fernando. Estou a chegar!"
Apresso-me a chamar o Prof. Cerqueira Rodrigues, Presidente da Direcção Pedagógica da Ancorensis, para o irmos receber e passados 10 minutos vejo-o chegar numa carrinha com os dizeres da AMI. A conduzir vem o Dr. João Sousa, Chefe da Delegação Norte. Cumprimento-os e fico a saber que o Dr. Fernando Nobre acordara pelas 6h da manhã para apanhar o comboio até ao Porto. Havia chegado há pouco tempo do Mali e preparava-se para dentro de dias se deslocar à Guiné. O homem não pára, mas teve tempo para nos vir dar o seu testemunho e satisfazer o desejo de conhecer Caminha, terra da sua avó paterna.
Convido-os a irem até ao bar tomar qualquer coisa e levo-os até à nossa exposição, quando me liga o Pe. Leonel Claro da Plataforma porDarfur. Por volta das 12h está tudo a postos. Começa a sessão. Faço a minha intervenção, ouço os nossos ilustres convidados enquanto o tempo voa. Tinha lado a lado duas pessoas com uma experiência de vida impressionante.
Após a conferência acompanho os convidados à porta e o Dr. Paulo Pereira, Vereador da Câmara Municipal de Caminha e voluntário da AMI que acabava de conhecer o seu "antigo patrão" como a ele se referiu, convida a delegação da AMI a ir almoçar até Caminha e a conhecer um pouco a vila. Eu e o presidente da Direcção Pedagógica também os acompanhamos a seu convite. Durante o almoço dirigiu-me algumas palavras olhos nos olhos que não esquecerei nunca: "Na tua idade não te podes acomodar", "Já dizia um político irlandês que para o mal vencer só é preciso que o bem não faça nada!". O almoço é rápido, porque o Dr. Fernando Nobre ainda queria apanhar o comboio no Porto pelas 16h30 para ver se conseguia jantar em família. Cumprimento-o pela última vez, agradecendo o seu esforço para responder ao meu convite. Pelas 17h ainda me voltou a ligar acerca de uma obra que um professor da escola lhe disponibilizou.
Quarta feira foi dia de futebol. Lançamos o desafio aos professores: queremos fazer um jogo entre a nossa turma e os professores pelo Darfur. Houve muitos receios da sua parte, mas no fim lá aderiram e tudo correu às mil maravilhas. O presidente da direcção deu o pontapé de saída e o jogo foi uma momento de grande diversão onde alunos e professores brincaram e gozaram do momento, com algumas malandrices e traquinices de parte a parte mas sem nunca quebrar o respeito necessário para que tudo corresse bem. Apesar de tudo, a idade não perdoa e os alunos venceram por 3-2 com um golo meu.
Na quinta feira realizei a minha última acção à qual chamei "Gritos". Face à ausência de convidados fui o único orador. Dei a conhecer a região, o conflito e aquilo que me move. Termino com duas citações: António Gedeão (“O sonho comanda a vida, e sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.”) e Saint-Exupéry (“Ninguém tem o direito de matar ninguém porque ninguém sabe os sonhos que estão no fundo dos olhos de cada um de nós.”) para explicar aos meus colegas que os níveis de conforto a que estamos habituados devem-se a homens que usaram sonhar mais e melhor e que por isso não temos o direito de matar os homens e os seus sonhos, porque assim estamos a acabar com a nossa possibilidade de continuar a sonhar e a progredir.
Abro o espaço às perguntas e alguém diz: "Quando disseste que achas que já conseguiste fazer algumas coisas bonitas, de que estavas a falar?" Respondo: "Dei a conhecer esta tragédia, entrei para Amnistia Internacional, conheci pessoalmente a Dra. Ana Gomes e o Dr. Fernando Nobre, tive vários contactos por telefone com D. Ximenes Belo, juntei professores e alunos num jogo de solidariedade, consegui juntar alguns fundos para enviar para aquela população, e hoje tenho a certeza, que daqui a um tempo quando vocês ouvirem falar novamente no Darfur irão dizer: «Quando eu andava na Ancorensis havia lá uns parolos que andavam sempre a falar no Darfur»".
A acção termina, recebo os parabéns por uma semana recheada de emoções e desloco-me até às salas onde uns colegas dinamizavam uma recolha de sangue, na qual participei com muito gosto. Assisto a mais alguns colóquios sobre segurança e emprego e visito a Feira do Livro e algumas exposições acerca do 25 de Abril, de Vila Praia de Âncora e da criminologia.
Desmonto a exposição, já que segunda-feira voltam as aulas, vou a casa tomar banho e jantar e chego mais cedo para assistir ao Sarau Cultural. Sou resgastado por uma professora para a "ajuda de palco". Basicamente a minha função era abrir e fechar cortinas. Mas como descobri naquela noite, até para isso é preciso ter classe. Acabei por fazer algumas brincadeiras para animar a festa. Depois de uma semana daquelas tinha que haver um encerramento à altura.
Alguns professores riam-se e diziam-me: "Estás possuído", "Olha a reputação que tu já ganhaste nesta escola", "Quem te viu na terça e quem te vê aqui!". Tinham alguma razão no que diziam. Mas tinha passado uma semana inteira a falar de Direitos Humanos, porque acredito na sua importância. E acredito também que depois do direito à vida, não há direito mais importante que o direito à felicidade, apesar do mesmo só ser contemplado na Constituição dos Estados Unidos da América. Naquela hora a alegria estava espalhada. Será que alguém ainda duvida da sua importância nos tempos em que vivemos?
PS: Um agradecimento especial a todos que no decorrer desta semana me dirigiram várias palavras de apoio e de congratulação e à Success Photography que fez a cobertura total das minhas actividades e não só!





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