quinta-feira, 2 de abril de 2009

João Paulo II - 4 anos depois

"Vim como mensageiro da verdade e da esperança, para vos trazer a Boa Nova e vos anunciar «o amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor». Só este amor pode iluminar a noite da solidão humana; só ele é capaz de confortar a esperança dos homens na busca da felicidade."*

Sou um apaixonado por História e, apesar de ter apenas 18 anos, sinto que já tive a oportunidade de viver muitos momentos que ficarão gravados na memória universal para o bem ou para o mal. São efemérides que me marcaram profundamente e que assinalo sempre neste blog: falo-vos do 11 de Setembro, do 11 de Março, da morte de João Paulo II e mais recentemente da eleição de Barack Obama como Presidente dos Estados Unidos da América.

E é por isso que hoje tenho que voltar aquele 2 de Abril de 2005 em que o velho papa polaco partia ao fim de 47 horas de serena agonia.

Aquando daqueles dias, João Paulo II já era para mim a personalidade que eu mais admirava, mas na altura, com 14 anos apenas, essa admiração prendia-se apenas com os momentos dos quais tinha tido a felicidade de ser contemporâneo, se assim podemos dizer.

Falo-vos sobretudo das recordações que remontam ao Jubileu do ano 2000: aquelas seis mãos que abriram a Porta Santa; o pedido de perdão pelos erros da Igreja naquele 12 de Março; a visita à Terra Santa e o novo pedido de perdão deixado no Muro das Lamentações; o encontro com os jovens em Tor Vergata, a visita a Fátima para a beatificações dos pastorinhos

Mas falo-vos também da sua forte oposição à Guerra do Iraque em 2003 quando gritou a todo o mundo: "Mai piú la guerra!".

Depois, inevitavelmente, toda a deteriorização progressiva da sua saúde e os sucessivos internamentos na Clinica Gemelli. Num mundo em que as imperfeições, a fragilidade, a doença e a velhice são escondidas, João Paulo II dizia presente, mente sã num corpo doente, fazendo jus às palavras do apostolo Paulo: "Quando sou fraco, então, é que sou forte".

E finalmente, os últimos dias... aquela sexta-feira santa em que o Papa assistia à Via-Sacra a partir da sua Capela Privada no Vaticano com a cruz entre as mãos trémulas; aquele 30 de Março, em que se apresentou ao mundo da janela do seu quarto, mas já sem aquela voz que havia gritado a todo o mundo a palavra de Deus; depois aquele 31 de Março, dia em que eu completava 14 anos, e que marcou o ínicio da sua agonia que terminou dois dias depois, quando o monsenhor Leonardo Sandri, anunciava perante os milhares de pessoas que se haviam deslocado espontaneamente até à Praça de São Pedro que "o nosso amadíssimo Papa João Paulo II tinha regressado à casa do Pai".

Foi aí que algo de imprivisível ocorreu: milhões de pessoas vindas dos quatro cantos planetas deslocaram-se até Roma para dizer um "adeus" e um "obrigado" aquele que reconheciam não só como um papa, mas também como um líder carismático, um amigo, um pai, um avó, e que esperariam filas de 9 horas para passar uns segundos à frente do corpo do velho papa; das elites veio um número sem fim de mensagens de condolências e ao funeral assistiram um número recorde de chefes de Estado e chefes religiosos.

Lembro-me então, dos balanços feitos naqueles dias a um pontificado de 27 anos que marcara história. Eram peças jornalísticas que enumeravam os recordes, calculavam quantas vezes havia percorrido a distância Terra-Lua, quantas vezes a volta ao mundo, quantos países havia visitado, quantas páginas tinha escrito, quantos fieis havia encontrado, todas "a primeira vez que"...

E só aí passei a conhecer melhor a grande história daquele pontífice, protagonista indiscutível da História do último quartel do século XX, cujo o seu carisma, os seus gestos e as suas palavras perduram ainda na memória de tantos.

A história de um homem vindo de um país longínquo, nascido a 30 km de Auschwitz. A história de um rapaz forte, que em pequeno queria ser actor, mas encontrou Deus na sua estrada, durante o tempo da guerra. A história de alguém que disse "sim" a Deus, quando o mesmo foi abolido pela lei por homens que em nome do povo, proibiam as procissões, espiavam a Igreja e prendiam os bispos.

E depois, já como sucessor de Pedro, a história das suas batalhas para repor o Evangelho no centro do mundo, para combater os regimes da Cortina de Ferro, para vencer a morte na Praça de S. Pedro, para partilhar a esperança com os homens de todas as religiões, para pedir perdão pelos erros da Igreja, para impedir a guerra que não pode nunca ser justa, para combater o ateísmo e a frágil religiosidade de um Ocidente aparentemente livre e para testemunhar o valor da vida na doença, no sofrimento e na dor...

Daí que, hoje, ao recordar aqueles dias, não estranhe que aquele sentimento de dor e pesar universal, se convertesse ao mesmo tempo em alegria e esperança, encarnados nas palmas, nas aclamações e nas canções, sobretudo dos jovens, a quem ele tanto se havia dirigido: no fundo, poucos duvidamos da grandeza do seu testemunho; poucos duvidamos que aquele que partia fosse, sobretudo, um santo...


* Aquando da visita a Cuba

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